O sabiá nosso de cada dia… ou noite!

Por Vítor de Q. Piacentini

Nas duas últimas semanas, aproximadamente, uma simpática ave virou notícia nas mídias impressas e principalmente internéticas do Brasil, com especial referência a São Paulo: o sabiá-laranjeira. Para nossa (= de quem curte aves) tristeza, o simpático sabiá não era aclamado por seu melodioso canto – pelo contrário: o bichinho tá literalmente tirando o sono de muita gente! Entre brincadeiras e ameaças de morte, muitas pessoas se manifestaram incomodadas com o canto de madrugada do sabiá. Aqui em São Paulo ele começa a cantar em alguns lugares por volta das 3h da manhã, acordando alguns de seus vizinhos cedo demais. Eu, que também odeio acordar cedo, entendo o ponto de vista desses reclamões. Mas considero uma injustiça, e é por isso que estou escrevendo este texto.

Fato é que no Brasil costumamos reclamar sem nem saber direito os porquês. Afinal, o que está acontecendo? De quem é a culpa pelo sono interrompido? O Sakamoto, em seu muito bom blog, relatou os fatos. O pai do João, o Sr. Helio, apresentou soluções criativas, ainda que a primeira delas não seja tão saudável! E a Folha de São Paulo buscou levar mais informação aos seus leitores, embora infelizmente confiando em algumas informações sem respaldo científico.

Assim como muitas outras aves, o sabiá-laranjeira inicia sua temporada reprodutiva após o inverno e é através do canto que o macho atrai suas parceiras e demarca seu território, como informado à Folha pelo amigo Márcio Repenning. E é por isso que nesta época começam as cantorias pré-matinais. A informação do Sr. Dalgas Frisch [de quem respeitosamente tenho todas as objeções possíveis] de que os machos estão cantando para ensinar os filhotes não tem qualquer embasamento. Aliás, no início da estação reprodutiva, quando se espera a maior atividade vocal das aves, os filhotes ainda nem nasceram. E só nascerão se os casais parearem, e é justamente pra parear que os machos agora cantam! Há portanto uma óbvia inconsistência causo-temporal naquele argumento. Todavia, a função do canto do sabiá explica apenas uma parte dos fatos [por que eles cantam?], mas não a que mais interessa aos insones das metrópoles: por que às 3h da manhã? E é aqui que vem a parte mais legal de toda essa história. Os sabiás-laranjeira estão cantando assim cedo em São Paulo (e também Porto Alegre, Cutitiba e outras cidades) mas NÃO nas áreas florestadas onde a espécie também ocorre! Como assim? Não é primavera em todos esses lugares??? Pois é, quem mora em sítios ou também na borda de maciços florestais e presta atenção nas aves ao seu redor já notou que a primavera chegou e que os sabiás estão cantando. Mas iniciam a cantoria apenas quando começa a clarear o dia! Pra inveja de muitos!

O que faz os sabiás iniciarem a cantoria tão cedo nas cidades? Quem conhece um pouco da biologia das aves sabe que elas têm seu metabolismo influenciado pelo fotoperíodo do dia [o tempo total de claridade que um dia qualquer apresenta – maior no verão, menor no inverno, como quase todo mundo sabe]. Logo, o impulso inicial é pensar que a iluminação artificial está fazendo os sabiás acordarem mais cedo. Só que essa explicação não é de todo satisfatória, já que a iluminação artificial está igualmente disponível após o pôr-do-sol, porém os sabiás vão dormir nessa hora. Além disso, se apenas a luz fosse um estímulo pros sabiás, seria esperado que eles continuassem ou até aumentassem a cantoria no restante do período claro do dia. Mas isso não acontece. Algo mais deve estar acontecendo.

A resposta exata pro despertador paulistano soar às 3h da manhã eu infelizmente não tenho. Mas calma! Não fiz vocês lerem até aqui pra assumir que não sei e pronto. Nós ornitólogos temos sim uma boa pista. Meu amigo e colega Rafael Marcondes excelentemente lembrou de um trabalho feito na Inglaterra com uma outra espécie de ave, mas cuja história de cantoria em cidades é muito parecida. E o que nossos colegas europeus descobriram é que o principal fator influenciando o horário de cantoria da passarada urbana é o barulho das cidades! Tal qual pra todas as demais espécies – incluindo a nossa própria – sexo é muito importante, quase que um objetivo de vida. E, conforme falei acima, é cantando que os machos conseguem suas parceiras. Mas como os sabiás têm seus territórios, os machos precisam cantar para as fêmeas ao mesmo tempo em que precisam ficar numa mesma área para evitar que outros machos tomem seu lugar. Dessa forma, quanto mais longe seu canto chegar, maior a chance de uma fêmea escutar e se interessar por ele. E com todo o barulho das cidades, qual seria o momento do dia em que um sabiá macho consegue disseminar mais longe (e com maior chance de sucesso) a “informação sonora” de sua presença em determinado território? Exatamente, caro leitor: no horário em que a cidade é mais silenciosa (ou menos barulhenta, no caso de São Paulo)! O sabiá só faz aquilo que nós mesmos fazemos. Ou você (leitor homem) nunca chamou uma menina no meio de uma festa pra ir “lá fora” ou “naquele canto mais calmo” pra poder conversar com ela mais tranquilamente? No mínimo você já se afastou de um ambiente barulhento pra atender um telefonema e assim facilitar a comunicação. E é só isso que os sabiás estariam fazendo. Se existe um culpado pelo horário em que os sabiás citadinos estão acordando, somos nós. Tudo isso posto, penso que apenas um fator ainda carece de uma explicação satisfatória: por que algumas poucas pessoas não conseguem apreciar um canto melodioso de um sabiá?

Comentários extras:

– Quem quiser conhecer mais sobre o sabiá-laranjeira, “o terror das madrugadas paulistanas”, pode ver fotos e ouvir cantos da espécie aqui.

– Ao contrário do divulgado por algumas pessoas e inclusive repetido no site do Wikiaves referenciado acima, o sabiá-laranjeira NÃO é ave-símbolo do Brasil. O Brasil não tem uma ave-símbolo oficial. Conforme pode ser lido por qualquer pessoa, o texto do Decreto Presidencial de 3 de outubro de 2002, que institui o “Dia da Ave”, diz apenas que o sabiá[-laranjeira] (Turdus rufiventris) será o “centro de interesse para as festividades do Dia da Ave”. Em breve publicarei um texto detalhado sobre isso, já que o decreto menciona por cima ser o sabiá “popularmente Ave Nacional”, levando os menos atentos à confusão. Mas, pra bom entendedor, “me.. pala… bas..”.

– Gonçalves Dias, ao compor os versos clássicos de sua Canção do Exílio (“Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”) muitíssimo provavelmente fazia alusão ao sabiá-barranco (Turdus leucomelas), espécie de sabiá até hoje abundante (e a mais comum, de acordo com o amigo Firmino Filho) em Caxias, na região dos “cocais” [olha aí as palmeiras!] do Maranhão, terra natal do aclamado poeta. O sabiá-laranjeira, por outro lado, não é conhecido de Caxias, ainda que ocorra não muito longe dali.

Atualização: o amigo Sandro von Matter (to cheio de amigos – que bom!) leu o post e me indicou um segundo trabalho, também feito na Europa, que mostra que o barulho das cidades afeta o horário em que os bichos cantam. Mas o mais legal é que esse segundo trabalho, publicado agora em agosto, lida com um parente mais direto do nosso sabiá-laranjeira: o Turdus merula.