Homem é tudo igual? O curioso fenômeno do heteroginismo

Por Vítor de Q. Piacentini

Se por um acaso você, cara leitora [ou leitor, né? Século 21, sem preconceitos], brigou com o namorado e, num momento de raiva, chegou neste singelo blog ao procurar no Google textos que sustentem a tese de que “homem é tudo igual”, que “homem nenhum presta” [mentira], etc., etc., receio que você ficará decepcionada(o), já que aqui trato de passarinho (passarinho passarinho!). Ou não! De repente você descobre que o universo das aves é superinstigante e passa a curtir os bichos, não é mesmo? Na dúvida, leia até o final, já que alguns comentários aqui versarão sobre comportamento e seleção sexual. E isso pode ser interessante pra você neste momento. [No mínimo vai dar uma acalmada] 🙂

Hoje falarei de heteroginismo… Mas não se preocupem, podemos falar de heteroginismo com a certeza de que bolsonaros e felicianos não nos incomodarão.


Na primeira metade do século passado, mais ou menos quando nossos avós ou bisavós eram crianças, um respeitável senhor austríaco a quem muito admiro – ninguém menos que Carl E. Hellmayr (1878-1944), talvez o maior ornitólogo de aves neotropicais – trouxe à tona um padrão muito peculiar de diferença de plumagem entre alguns papa-formigas (aves da família Thamnophilidae). Hellmayr notou que, para alguns grupos de espécies ou subespécies, os machos eram todos muito parecidos ou mesmo idênticos, enquanto que as fêmeas das espécies é que diferiam entre si (e permitiam reconhecer que eram entidades distintas).

Esse padrão é pouco comum e muito curioso. Via de regra, o que notamos nos animais é que, quando as espécies apresentam dimorfismo ou dicromatismo sexual, a seleção sexual tende a exacerbar traços morfológicos nos machos. É isso que faz com que pavões, faisões, aves-do-paraíso, alguns beija-flores e mesmo nossos tangarás (Pipridae) e anambés (Cotingidae) sejam tão belos, por vezes até psicodélicos. Aliás, a seleção sexual pode ser uma grande mola propulsora do processo de especiação, “gerando” caracteres que passam a diferenciar populações/espécies aparentadas a partir de um ancestral comum. Mas em todos esses casos, o padrão clássico é que machos sejam vistosos e diferentes, enquanto as fêmeas são discretas e, comumente, bastante parecidas entre si. Isso é exemplificado nas aves brasileiras pelos padrões de plumagem dos anambés dos gêneros Cotinga, Xipholena e Procnias (aqui e adiante, sempre comparando as espécies e subespécies dentro do mesmo gênero, claro), pelos tangarás dos gêneros Lepidothrix, Chiroxiphia, Pipra e Ceratopipra, pelos papa-capins do gênero Sporophila (especialmente os caboclinhos), por beija-flores como Thalurania e Heliomaster, nos gaturamos Euphonia, em pares de espécies como os beija-flores Lophornis magnificus e L. gouldii, as saíras Hemithraupis guira e H. ruficapilla, etc. Há um sem-número de casos e um leitor ornitólogo mais atento certamente conseguirá lembrar de outros mais que eu não citei. Mais importante, todos eles são compreensíveis quando se pensa em seleção sexual.

Justamente por ser algo recorrente e, principalmente, entendível com alguma facilidade numa perspectiva evolutiva, esse padrão de diferenças de plumagem não nos espanta. O que chama a atenção é justamente quando acontece o oposto, o que, como mencionado acima, foi descrito por Hellmayr: fêmeas são distintas e machos são iguais. O heteroginismo!

Como explicar o heteroginismo? Como eu disse, esse fenômeno é especialmente comum em papa-formigas. Um caso clássico são os olhos-de-fogo (gênero Pyriglena), em especial os do grupo leuconota. Nesse grupo, os machos de todos os táxons são completamente negros e idênticos entre si, ao passo que as fêmeas podem ser bastante distintas. Basta o leitor comparar fotos de machos e fêmeas (p.ex. no Wikiaves) para apreciar o fenômeno. Pra facilitar a diferenciação das fêmeas, posto abaixo uma foto de espécimes de museu (que permitem uma visualização mais adequada, já que todos ficam sob uma mesma exposição de luz).

Pyriglenas2

Exemplares fêmeas (peles científicas) de Pyriglena do grupo leuconota em vista ventral, lateral e dorsal. Da esquerda para a direita: P. l. maura (do Pantanal e arredores, com supercílio claro); P. l. similis (entre os rios Tapajós e Xingu, com o corpo escuro e cabeça preta); P. l. interposita (entre o Xingu e o Araguaia-Tapajós, com fronte cinza); P. l. leuconota (a “verdadeira”, a leste do Araguaia-Tocantins); e P. pernambucensis (na Mata Atlântica da PB a AL, com ventre escuro e oliváceo). Diferenças de tamanho, forma e exposição do branco interescapular são artefatos da preparação dos espécimes. Todas essas subespécies são fortes candidatas a serem tratadas como espécies independentes de P. leuconota num futuro próximo, tal qual recentemente adotado para P. pernambucensis (© Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo/V.Q.Piacentini).

No trabalho original em que descreve o heteroginismo, Hellmayr cita ainda como exemplos os gêneros (às vezes o gênero todo, às vezes um ou outro caso em) Thamnophilus, Dysithamnus, Thamnomanes, Myrmotherula, Cercomacra, Schistocichla (= atual Myrmelastes), Myrmoborus e Willisornis. Mas o trabalho fica só na descrição. Em nenhum momento é sequer especulado um mecanismo que poderia estar por trás desse fenômeno, o que nos deixa um mistério. O que poderia gerar esses padrões?

Foi o grande biólogo do século XX (e ornitólogo!) Ernst Mayr quem primeiro (e unicamente?) sugeriu uma explicação para o fenômeno. Em seu livro Systematics and the Origin of Species, from the Viewpoint of a Zoologist, de 1942, Mayr propõe que, por ocorrer tipicamente em espécies nas quais o macho é preto ou muito escuro, o heteroginismo resultaria de uma intensidade de pigmentação que está acima do limite em que a formação das cores das aves conseguiria ser influenciada (por pressões seletivas/evolutivas). Particularmente, não gosto dessa hipótese. Mayr discutiu o heteroginismo nesse livro ao alertar sobre sua ocorrência fora dos papa-formigas, especificamente no grupo de subespécies de Pachycephala pectoralis das Ilhas Salomão. Acontece que, se a explicação de Mayr fosse satisfatória, ou seja, se os machos de P. pectoralis tivessem uma saturação de pigmentação, então não deveríamos encontrar diferenças entre machos de grupos distintos dentro dessa mesma espécie! Ou seja, o heteroginismo deveria valer pra todos os grupos de subespécies de P. pectoralis, não para apenas um. Neste caso, a exceção à regra seria preponderante sobre a regra em si!

Pachycephala_pectoralis_-_Risdon_Brook

Macho de Pachycephala pectoralisJJ Harrison, licensed under Creative Commons).

Tentei pensar em explicações alternativas, sem sucesso. Perguntei a alguns de meus gurus da biologia evolutiva, como meu amigo Fábio Amaral, que inclusive lembrou de outra exceção à hipótese da superpigmentação: o par Myrmoderus (ex-Myrmeciza) squamosus x loricatus. Neste par de papa-formigas, machos são mais parecidos entre si do que as fêmeas, muito mais distintas (compare imagens aqui e aqui). Não chegamos a um consenso. A explicação “esperada” seria talvez uma dominância das fêmeas nessas espécies, com machos atuando numa seleção sexual das parceiras – o inverso do que vemos em exemplos clássicos de seleção sexual, mas não consigo ver evidências disso em campo. Quem já fez playback para esses papa-formigas pode ter percebido que a regra é o macho do casal ser o primeiro a se aproximar para defender o território.

Ou talvez não estejamos prestando a devida atenção aos sinais. Eu estava há quase seis meses com esse texto incompleto até que nesta semana resolvi finalizá-lo. E na última sexta-feira (11/abril), por coincidência, meu amigo e colega Vagner Cavarzere, que está finalizando seu doutorado com o gênero Cercomacra (+Cercomacroides), comentou sobre um trabalho que mostrava que fêmeas de C. tyrannina também defendem território sozinhas (tal qual machos), o que permite conjecturar que, ao menos em alguns casos, os machos possam circular pelos arredores e também escolher as parceiras! Teríamos agora um norte para tentar explicar o heteroginismo?

Um fato intrigante que me veio à cabeça é que há certo heteroginismo em algumas situações na nossa própria espécie: casamentos e festas (ex. cerimônia de entrega do Oscar). Os homens com ternos e afins, sempre muito parecidos entre si (e usualmente em preto ou tons escuros), ao passo que as mulheres mostram uma variação muito maior em formas e cores de seus trajes. Mera coincidência? Qual a razão disso?

Infelizmente temos muito mais perguntas do que respostas e até hoje o mecanismo por trás do heteroginismo não é compreendido. E mais curioso, na minha opinião, é que ninguém nunca mais pesquisou o fenômeno. O fato é que, na próxima vez que você ouvir alguém falando que homem é tudo igual, lembre-se: ao menos em alguns casos, a pessoa pode estar correta.

 


Comentários adicionais:

– Eu sempre tive dúvida quanto à tradução do termo: heteroginia ou heteroginismo? (no original em inglês, heterogynism). Em uma pesquisa rápida, encontrei apenas três usos do termo em português: no livro de Helmut Sick (1997. Ornitologia Brasileira), por duas vezes aparece a palavra heteroginia, enquanto heteroginismo aparece uma vez. Embora eu não encontrasse argumentos para validar uma ou outra forma, eu estava propenso a defender o uso de heteroginismo, já que outros fenômenos ligados a variação de “aparência” também fazem uso do sufixo –ismo: dimorfismo, dicromatismo, albinismo, melanismo… Daí que semanas depois encontrei num livro de termos científicos, por outra pura coincidência, uma explicação: o sufixo –ia é usado para expressar uma ação, enquanto –ismo é utilizado para o resultado de uma ação. É praticamente uma diferença de causa x efeito. Assim, o mais adequado para nomear esse padrão de diferenciação de plumagem é mesmo heteroginismo (e o ato de gerar a diferenciação de fêmeas em detrimento de machos seria a heteroginia).

– Em muitos trabalhos, o nome de Carl Eduard Hellmayr aparece “traduzido” para o inglês, “Charles E. Hellmayr” – isso é especialmente verdade após Hellmayr ter sido contratado para trabalhar no Field Museum of Natural History, em Chicago. Uma foto de Hellmayr pode ser vista no belo obituário escrito por John Todd Zimmer (1889-1957), ornitólogo do American Museum of Natural History e talvez meu ídolo maior na taxonomia de aves (ou talvez empatado com o Hellmayr). O final do texto, em particular, me inspira e emociona. Zimmer destaca que o Catalogue of the Birds of the Americas foi a obra maior de Hellmayr, mas que é apenas um ícone maior dentre os muitos trabalhos feitos por ele, todos “prepared with the same rigorous search for fundamental truth” [grifo meu]. E poeticamente finaliza dizendo que “the monument, built with his own hands, needs no further adornment”.

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8 respostas em “Homem é tudo igual? O curioso fenômeno do heteroginismo

  1. Muito massa, Vitor!! Há tempos eu também me perguntava sobre essa questão do heteroginismo, e seu texto começou a explorar as respostas a algumas questões!! Um comentário adicional: a hipótese de “dominância” das fêmeas seria muito facilmente testável em campo… não sei como ninguém fez isso até hoje! Aliás, o link da Cercomacra tyrannina, pelo qual fiquei muito interessado, não está funcionando

  2. Parabéns pelo belo, objetivo e vem humorado texto! Está lançado o caminho das perguntas, já que vc passarinhou pelas respostas!

  3. Parabéns pelo texto. Pensando sobre a questão, a seleção sexual pode simplesmente ocorrer através da escolha do macho, apesar do “padrão” mais encontrado ser o contrário.
    Grande abraço

    Sexual selection in pinyon jays II: male choice and female-female competition
    Animal Behaviour Volume 36, Issue 4, August 1988, Pages 1048–1053
    Abstract
    Experiments were performed on a group of captive pinyon jays, Gymnorhinus cyanocephalus, to determine which female traits are favoured by female-female competition and which are favoured by male choice of mates. Brightness of malar feathers and body weight were weakly associated with female dominance. Female rank, weight and bill depth were related to success in pairing. Competition and choice favoured specific traits less strongly in females than in males.

    • Oi, Gustavo, obrigado pela indicação do artigo, bem interessante. Sim, a ideia mais “esperada” seria uma escolha pelo macho. O problema é que o pouco que conhecíamos dos Thamnophilidae sugeria que machos defendem territórios e as fêmeas é que circulariam pelos territórios escolhendo o parceiro. Isso até surgir o trabalho do Morton et al., que joga nova luz no assunto. Espécies com fêmeas territoriais sendo escolhidas por machos são mais raras, mas ocorrem mesmo no Brasil: Phalaropus tricolor (veja a plumagem reprodutiva da fêmea, muito colorida) e mesmo nossa jaçanã! Alternativamente, podemos pensar numa seleção estabilizadora de plumagem por parte de fêmeas – todas elas preferem machos pretos (no caso das Pyriglena), selecionando portanto contra variações. Tomara que alguém se interesse por pesquisar o heteroginismo e traga uma explicação bem embasada em breve. Por enquanto o máximo que eu posso fazer é palpitar. 🙂
      Abçs.

  4. Muito bom, Vítor! Teu texto desperta curiosidade pra quem é leiga como eu! E gostei muito de saber que pelo menos em alguma espécie as fêmeas se diferenciam, dá a sensação boa de quea natureza é mais complexa do que padrões fixados pelo homem! Valeu 😉

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