aves-do-paraíso

Meu primeiro contato com as aves-do-paraíso foi na infância, ao ganhar um livro sobre a Nova Guiné. Fiquei vidrado na diversidade de formas e cores desses bichos, não à toa: são talvez o grupo mais espetacular de aves no mundo. Enquanto não termino o próximo texto do blog, segue aquele videozinho clássico que todo mundo já viu mais de uma vez [eu, talvez entre 15 e 20 vezes!] mas que nunca cansa. Só pra manter o blog vivo enquanto lapido as novas ideias. E pensar em seleção sexual vai ajudar na hora de ler um dos futuros posts também.

Quem tiver tempo livre ou for adepto da procrastinação, não esqueça de dar uma olhada na página do projeto também – tem outros vídeos lá, todos espetaculares: http://www.birdsofparadiseproject.org/

— Caramba! Por uma “grande” [antes tinha um palavrão aqui] coincidência, fui buscar uma citação do Alfred Russel Wallace a respeito das aves-do-paraíso, já que ele foi um dos primeiros naturalistas a “estudar” essas aves e por estarmos justamente no mês que marca o centenário da morte deste notável cientista, e descobri que justo amanhã [12 novembro], no American Museum of Natural History, vai ter uma palestra sobre isso capitaneada por ninguém menos que Sir David Attenborough! [Piiiiiiiiiiiiiiiiii – outro palavrão!] Que evento dos sonhos: conseguiram juntar Wallace, Sir Attenborough, AMNH e aves-do-paraíso de uma única vez! Eu só lamento morar tão longe de Nova Iorque. Sem palavras!

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Crônica: Quando o beija-flor é flor!

Por Vítor de Q. Piacentini

Eu ainda lembro como se fosse hoje. Mal principiara novembro de 2005, um dia de sol, intervalo do almoço dentro do excelente XIII Congresso Brasileiro de Ornitologia, em Belém do Pará. Na saída do restaurante, o Prof. Luís Fábio Silveira – que viria a ser meu orientador do doutorado – me perguntou: “Por que você não faz a tese com uma revisão [taxonômica] dos Phaethornis?”

Phaethornis é um dos maiores gêneros de beija-flores existentes (em número de espécie, não em tamanho corpóreo), conhecidos genericamente por “rabo-branco” ou ermitão (uma tradução direta do nome inglês, hermit). Mas se você ainda não os conhece e está agora com aquela imagem mental de um passarinho* delicado e coloridinho suspenso no ar, pare imediatamente. Os Phaethornis não têm nada de colorido! Mas nem por isso são menos interessantes.

Mês passado foi publicado um trabalho que, embora “neonatal”, já pode ser chamado de um clássico: “Uma introdução ao esqueleto dos beija-flores num contexto funcional e filogenético”. Autorado pelo Dr. Richard Zusi, de 83 anos e curador emérito (aves) do Smithsonian Institution, é uma obra monumental. Quem é da área fica mesmo impressionado, por mais que a tradição de bons trabalhos pelo Dr. Zusi devesse nos deixar preparados para obras de qualidade. Ainda não tive tempo para terminar de ler o trabalho, mas um aspecto da obra deteve minha atenção: o estreptognatismo dos beija-flores. É dele que vou falar neste post, um pouco mais técnico do que o anterior.

Estreptognatismo é a capacidade de deslocar lateralmente os ossos da mandíbula, alargando a base do bico. Quem me ensinou esse termo foi meu colega e amigo Guilherme Brito, do blog CurioZoo [cuidado, ele às vezes usa uma linguagem mais forte. Mantenha fora do alcance de crianças ;-)]. E o motivo foi uma foto de outro amigo nosso, o renomado ornitólogo, guia e fotógrafo Ciro Albano. Durante uma viagem à Bahia, Ciro notou que os machos de Phaethornis margarettae – uma espécie ameaçada de extinção – alargavam a mandíbula de maneira a ressaltar sua base vermelha durante sua exibição nupcial (se é que se pode chamar de exibição). Muitos beija-flores, notadamente os Phaethornis, possuem sistemas de acasalamento no qual os machos congregam-se em “arenas” (leks) de exibição onde passam boa parte do dia cantando, cada macho alternando entre dois ou três poleiros preferenciais num ponto distante o suficiente de outros machos para manterem apenas contato auditivo, sem contato visual. Eu falei que Phaethornis eram interessantes!

A foto do Ciro é esta aqui em baixo, e fala por si só:

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Foto rabo-branco-de-margarette (Phaethornis margarettae) por Ciro Albano | Wiki Aves – A Enciclopédia das Aves do Brasil.

Quando a vi pela primeira vez, imediatamente pensei: “Nossa, que p***** é essa? Parece uma pétala. E de Masdevallia. Espetacular!!!!” Pois é, sempre que revejo esta foto, esse bico me remete a uma pétala (sendo tecnicamente preciso, neste caso seria uma sépala) de alguma orquídea do gênero Masdevallia, como nessa foto minha, abaixo.

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Tudo bem, minha foto não está das mais didáticas, então vejam fotos de Masdevallia veitchiana no Google imagens aqui.

Os impressionantes vídeos do Ciro, abaixo, mostram um macho de Phaethornis margarettae se exibindo.

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Esse comportamento sensacional não é exclusividade de Phaethornis margarettae, já tendo sido observado em pelo menos quatro outras espécies do gênero. E o Dr. Zusi faz uma pequena revisão a respeito do tema no seu trabalho. Aliás, apenas nos Phaethornis o estreptognatismo é usado em exibição nupcial. Em outros beija-flores, um estreptognatismo mais sutil (bem mais sutil!) pode ser observado enquanto as aves bebem néctar. Também aves insetívoras, como barucaus, podem realizar o estreptognatismo para capturar suas presas. Sem falar nos pelicanos, um exemplo clássico desse comportamento (mas não confundam com o alargamento da pele do mento e da base da mandíbula).

Curiosamente, beija-flores nunca estiveram entre minhas aves favoritas (curto muito mais as bandeirosas saíras). A maioria dos contatos que temos com eles no campo mal permitem uma visualização, quanto mais uma identificação da espécie, embora ouvidos e olhos mais treinados possam reverter esse quadro desfavorável. Essa dificuldade de identificação acabou sendo um desestímulo pra minha empatia com essas aves. Mas quis o destino que eu viesse a trabalhar com beija-flores tanto no mestrado como no doutorado, ainda que em projetos totalmente desconectados.

Ao ouvir aquela proposta, em novembro de 2005, fiquei pensando se realmente eu gostaria de trabalhar outra vez com beija-flores. Foi quando o Prof. Mario Cohn-Haft, do INPA, que nos acompanhava, comentou: “Esse é um projeto muito legal, alguém precisa desfazer a bagunça que está a taxonomia dos Phaethornis”. Esse comentário – confidenciei ao Mario na última vez em que nos encontramos – foi definitivo pra eu aceitar o desafio. E ali, naquele momento, eu comecei a desmontar meu preconceito contra os beija-flores.

Hoje acho beija-flores bem interessantes, claro, em especial os Phaethornis em suas vestes discretas de cinzas e marrons. E então meu amigo Ciro me traz essas imagens espetaculares, pura arte, dos Phaethornis revelando um colorido escondido e uma complexidade de comportamento e forma que supera muito do que eu tinha em mente. Ao formar essa “pétala”, é como se o beija-flor invertesse seu papel na natureza e, para atrair as fêmeas, se fizesse flor.

Zusi, Richard L. 2013. Introduction to the skeleton of hummingbirds (Aves: Apodiformes, Trochilidae) in functional and phylogenetic contexts. Ornithological Monographs, 77(1): 1-94. doi:10.1525/om.2013.77.1.1

Comentários adicionais:

* Beija-flor é passarinho? Tem gente que defende que somente as aves Passeriformes deveriam ser chamadas de “pássaros”, comumente disseminando que “todo pássaro é uma ave, mas nem toda ave é um pássaro”, tal qual eu mesmo já fiz. Só que o uso comum das palavras “ave” e “pássaro” é totalmente intercambiável e as duas palavras são sinônimos, tanto que esse sentido já está dicionarizado. Se tiverem acesso, busquem ler o ótimo texto do meu amigo Fernando Straube “Todas as aves são pássaros”, publicado na revista Atualidades Ornitológicas v. 148, p. 4-6, 2009.

– As arenas dos beija-flores se mantêm “estáveis” durante muitos anos, mesmo décadas. Obviamente que os indivíduos mais velhos vão morrendo e seus espaços vão sendo ocupados por novos indivíduos. Mas a localização de uma arena de Phaethornis, se não houver nenhum distúrbio, tende a ser a mesma ao longo do tempo. E a atividade nessas arenas ocorre ao longo de praticamente todo o ano, embora mais intensa em algumas épocas. Eu mesmo já visitei lugares indicados por amigos que haviam descoberto as arenas 5, até 20+ anos antes (p.ex. Reserva da Vale, em Linhares).

– Um dos beija-flores mais enigmáticos do mundo é o “Bogota Sunangel”, batizado cientificamente de Heliangelus zusii justamente em homenagem ao Dr. Zusi. Essa espécie é conhecida por um único exemplar coletado possivelmente no leste dos Andes colombianos em 1911, em local desconhecido. Ninguém nunca encontrou essa espécie na natureza e muitos temem que possa estar extinta pelo desmatamento. No fim de 2011 algumas aves parecidas foram localizadas ao norte de Bogotá; estudos em andamento, incluindo análises genéticas, dirão se é mesmo a misteriosa espécie.

– Sempre que penso na palavra “pétala”, lembro da música do Alceu Valença, que traz na letra beija-flor, flor e até lagarta! Fica de trilha sonora: http://grooveshark.com/s/P+talas/3TeTcg?src=5

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